terça-feira, 26 de março de 2013

Diário de Uma Catarse


Sábado, 03 de Novembro de 2007

Querido diário,

Esta é a primeira vez que escrevo em suas páginas. Ao contrário de Deus, escreverei errado por linhas retas. É estranho expor tudo o que se passa dentro do meu coração em letras cursivas. Mais estranho ainda é não ter alguém para me ouvir, sendo necessário um desabafo sobre um objeto inanimado. Mas é a minha maneira de escapar, de me refugiar de uma realidade que está ao meu redor e que insisto em fingir que está do outro lado dos muros.

Preciso confessar que, às vezes, forço um choro na esperança de que uma lágrima represente a minha tristeza. Necessito de uma prova, uma prova palpável de que todo esse rancor seja real e não algo da minha inútil memória. Meus amigos, se é que posso chamá-los assim, têm seus próprios problemas e não suportam carregar um peso a mais. Por isso, guardo dentro de mim minhas inúmeras indagações. Não seria justo despejá-las sobre eles, seria? Eles parecem não pensar o mesmo, pois sempre os ouvi e nunca houve reclamações da minha parte. Acho, inclusive, que ouvi-los faz com que eu me esqueça dos meus demônios particulares.

Recentemente, revi através de uma foto um colega que, mesmo distante, se fazia presente. Senti saudades. Mas houve um desentendimento entre nós e meu orgulho é tão grande que não sou capaz de pedir desculpas. Tenho a sensação de que vou me sentir subtraída, insignificante. Tudo não passa de egoísmo, eu sei. Afinal, sou humana e essa característica tem sido minha desculpa para não voltar atrás.

Também quero falar dos amores, querido diário. Às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim. Por trás do meu sorriso há muito mais do que ele possa aparentar. É querer muito que alguém me enxergue como verdadeiramente sou? Tenho tanto a oferecer a um verdadeiro amor. Há tantos poemas que eu gostaria de ler, tantos cafés-da-manhã que eu gostaria de passar tomando um chocolate quente e comendo torradas e também há abraços e beijos que, carinhosamente, eu adoraria oferecer. Porém, tudo isso parece tão distante de mim.

Estou envelhecendo. Minhas mãos já não são as mesmas e percebo isso ao observá-las no momento em que escrevo. O tempo está correndo e me pergunto: o que será de mim? Tenho medo do futuro. O que ele me reserva é uma surpresa e eu detesto surpresas. Normalmente, nunca são boas. Peço desculpas por escrever palavras tão lúgubres. Queria mesmo poder contar experiências melhores, mais dóceis. Percebe? Até contigo eu me preocupo, Sr. Diário.

No entanto, por hoje é só. Pode “respirar” agora. Prometo não fazer deste pequeno livro um conto de dramas. Já me encontro em um estágio de incredulidade tão avançado que, acredite, não vou te torturar por tanto tempo. Tudo tem um fim. Como eu sempre digo: não há inferno que dure para sempre. O meu está prestes a terminar. Ainda assim, obrigada por me receber em suas linhas.

De sua grata e não tão feliz,
Lílian.

domingo, 17 de março de 2013

Rascunhos



"Ele era um personagem sem nome, sem características, sem futuro. Arrisco dizer que ele era menos que isso. Um esboço, talvez. Mas feito com toda a fúria de um coração ferido. Os traços eram disformes, não faziam sentido. Nem se observado de perto, muito menos à distância. Ele era um reflexo do desprazer, da solidão, do nada.

As mãos estavam trêmulas. Lágrimas caíam sobre o desenho ainda incompleto e borravam a tinta preta. Foi necessário, foi proposital. Tinha que haver a marca da dor. Não só no traçado forte da caneta, mas também em seu desfoque. Não conseguiríamos enxergar a cor dos olhos ou da aura. Sequer saberíamos se continha ali um sorriso. Tudo o que era necessário era a vontade incontrolável de expor todo aquele sentimento em um papel. Papel esse que fora amassado, arremessado ao lixo, mas que por um impulso fora resgatado, a fim de que tudo aquilo tivesse uma conclusão. Mesmo que houvesse um fim sem um fim.

A música agora atingia seu ápice. Era tocante, forte, contundente. Era a trilha sonora perfeita para aquela arte. Arte? Depende do ponto de vista. Para ele, esse ser insignificante, todos os esforços foram utilizados. E a página em branco agora chamava sua atenção. O que fazer? Esboçar ainda mais o escuro ou reinventar, utilizando novas cores, personagens mais aprazíveis?"